
Com ritmo e poesia, grupo de música resgata a cultura negra da Nação Xambá.
Nas ladeiras de Olinda, Pernambuco, reside o grupo Bongar. No repertório, poesias que falam da resistência da nação Xambá e da cultura afro-brasileira, nas batidas do coco-de-roda, coco-de-umbigada, coco da xambá, além de influências do maracatu, frevo, caboclinho, da ciranda, do bumba-meu-boi e do samba-de-roda. O grupo Bongar é formado por seis pessoas no palco, todos percussionistas e cantores que revezam os instrumentos como a alfaia, ganzá, abê, caixa, congas, ilú e tabicas. Cleyton José da Silva, “Guitinho”, voz principal, e pandeirista do grupo, em entrevista, fala sobre os planos do Bongar, políticas culturais e a luta pela resistência da cultura afro-brasileira.
Vocês se consideram um movimento negro de resistência?
Sim. Por meio dos nossos cantos, aliados à sonoridade dos instrumentos, como a alfaia que carrega em seu bojo uma história milenar, passamos a cultura de um povo que resistiu a todas as dificuldades naturais da vida e as barreiras postas muitas vezes pelos instrumentos do Estado. Ao mesmo tempo, quando entramos no palco, tentamos mostrar um pouco do universo do terreiro Xambá, por meio de uma magia e de uma alegria peculiar do povo negro.
E como é a relação de vocês com a cultura afro?
Ancestral. Convivemos com vários elementos, ao nosso redor, ligados à cultura afro. A forma como nos organizamos socialmente e em comunidade, como no Portão do Gelo, na cidade de Olinda, Pernambuco, localidade onde se encontra o terreiro Xambá. Poderíamos até considerar o local como um quilombo urbano, pois tem todas as características dessa organização. Também podemos identificar essa ligação pela maneira como andamos, comemos, nos vestimos, falamos, cantamos, dançamos, tocamos e principalmente em nossas cerimônias religiosas, quando evocamos e celebramos os nossos antepassados e os nossos deuses (os Orixás).
É difícil defender a bandeira da tradição negra, com a grande mídia ignorando-a?
Existem as dificuldades, mas nos moldamos ao tempo, assim como outras culturas. Os jovens hoje, como posso ver, ensaiam maracatu, coco de roda, ciranda, bumba-meu-boi, cavalo marinho, reisado, entre outros brinquedos, no início da noite de um sábado até às 22h, depois eles vão a shows de pagodes, axé music, brega. Hoje há uma imensa pluralidade de divertimentos, mas a cultura de um povo não morre de uma hora pra outra, é algo que corre no sangue das pessoas e o sangue carrega o DNA que é passado de geração pra geração. Apesar das coisas estarem caminhando para o global, as comunidades não abandonam as suas bandeiras, porque ao contrário do que muitos teóricos acreditam a nossa cultura está diretamente ligada a nossa religiosidade. Então, pra nós, a nossa cultura é a nossa religião, onde cantamos todo o nosso axé.
Existem incentivos governamentais ou privados para esta área?
O atual Governo, sem sombras de dúvida, abriu muito as portas para a valorização da cultura, em especial a cultura de matrizes africanas. Não estou jogando confetes nessa gestão. Também quero deixar bem claro que não sou ligado a partidos políticos, mas temos que reconhecer as boas ações, como os pontos de cultura. Aonde era que um dia iríamos imaginar um terreiro de xangô (termo utilizado em Pernambuco para as casas de matrizes africanas), fosse ter um título desse, reconhecendo as suas atuações em suas comunidades, durante décadas, como produtores de cultura. Digo isso partindo de dentro do terreiro Xambá, hoje um ponto de cultura. Mas ainda há muito a se conquistar. As instituições governamentais ainda têm que abrir mais as portas para determinados segmentos da cultura e não só olhar para o teatro, a dança, as artes visuais, o cinema. E as iniciativas privadas deveriam se aproximar mais desse universo. Começamos a furar o bloqueio dessas empresas privadas. Mas o caminho é muito difícil, não tão fácil como as empresas financiam as campanhas de políticos, como vemos a facilidade de doações.
O RITMO DITA TUDO, FALA E REFAZ A IDÉIA...
PEDE QUE EU MANDO...FUI













